16/02/2009

Dom Helder, pleno do dom da vida


Pronunciamento(Do Senhor Deputado Chico Alencar, PSOL/RJ)Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados e todo (as)s os (as) que assistem a esta sessão ou nela trabalham.

Para além das "celebridades" de momento e das estrelas midiáticas, de enorme visibilidade telemercantil, as nossas novas gerações precisam conhecer os grandes brasileiros. Em 7 de fevereiro passado nascia, há um século, no Ceará, Helder Pessoa Câmara, o padre Helder, como ele gostava de ser chamado, o arcebispo dom Helder Câmara, como ficou mundialmente conhecido. Dom Helder também do Rio e de Pernambuco, dom Helder pleno do Dom da vida, do despojamento, da generosa luta pela justiça e contra a ditadura, da igreja dos pobres, sem a suntuosidade e o formalismo do Vaticano. Dom Helder perseguido entre os perseguidos, voz teimosa dos silenciados, que jamais conseguiram silenciar. Dom Helder Câmara cujo nome, até seu simples nome, os jornais estavam impedidos de mencionar, naqueles ásperos tempos inaugurados pelo golpe militar de 1964!

Ourives da Palavra, irmão da Ordem dos Pregadores, frei Betto que conviveu bastante com dom Helder, inspirado, "psicografou", pela fé e na esperança de um outro mundo e uma outra igreja possíveis, uma mensagem contemporânea do nosso amado arcebispo, que tenho a honra de transcrever:

"Querido (a)s: estivesse entre vocês, a 7 de fevereiro comemoraria 100 anos de idade. Quis o bom Deus, entretanto, antecipar-me a glória de desfrutar Sua visão beatífica. Aliás, o Céu nada tem daquela imagem idílica que se faz na Terra. Nada de anjos harpistas e nuvens cor-de-rosa, embora a música de Bach tenha muita audiência. Entrar na intimidade das três Pessoas divinas é viver em estado permanente de paixão. Arrebatado por tanto amor, o coração experimenta uma felicidade indescritível.A propósito, outro dia, Buda, de quem sou vizinho, me contou esta parábola que bem traduz o caminho da felicidade: numa feira da Índia, entre tantos restos de frutas e legumes, uma mulher fitava detidamente o chão. Viram que procurava algo. Um e outro perguntaram o quê. 'Uma agulha'. Não deram importância. Porém, quando ela acrescentou que se tratava de uma agulha de ouro, multiplicou o número dos que a auxiliavam na busca. Súbito, um deles perguntou: 'A senhora não tem idéia de que lado da feira a perdeu?' 'Não foi aqui na feira', respondeu a mulher, 'perdi-a em casa'. Todos a olharam indignados. 'Em casa?! E vem procurar aqui fora?' A mulher fitou-os e retrucou: 'Sim, como vocês procuram a felicidade nas coisas exteriores, mesmo sabendo que ela se encontra na vida interior'.O Céu é terno, o que não impede que experimentemos indignações. Jesus não fez a fome e a sede de justiça figurar entre as bem-aventuranças? Quando olho daqui para a Igreja Católica confesso que sinto, não frustração, mas uma ponta de tristeza. O papa Bento XVI não transmite alegria e esperança. Faltam-lhe o profetismo de João XXIII e a empatia de João Paulo II. Padres cantores atraem mais discípulos do que aqueles que se dedicam aos pobres, aos lavradores sem-terra, às crianças de rua, aos dependentes químicos. Nas showmissas os templos ficam superlotados, enquanto nos seminários o ensino de filosofia e teologia costuma ser superficial. A vida de oração não é estimulada, muitos buscam o sacerdócio para obter prestígio social e, por vezes, o moralismo predomina sobre a tolerância, o triunfalismo supera o espírito ecumênico. Até quando homossexuais serão discriminados por quem se considera discípulo de Jesus?Alegra-me, porém, saber que as Comunidades Eclesiais de Base estão vivas e se preparam para realizar o seu 12o encontro intereclesial, em Rondônia, no próximo julho. Dou graças a Deus ao constatar que o CEBI - Centro de Estudos Bíblicos - conta com mais de 100 mil núcleos espalhados pelo Brasil, integrados por gente simples interessada em ler a Bíblia pela ótica libertadora.Preocupa-me, entretanto, a polêmica entre os irmãos Boff. Tanto Leonardo quanto Clodovis são teólogos de sólida formação. Não considero justa a acusação feita por Clodovis de que a Teologia da Libertação teria priorizado o pobre no lugar do Cristo. O próprio Evangelho nos mostra Cristo identificado com os pobres, como ocorre na metáfora da salvação em Mateus 25, 31-46.Francisco de Assis, com quem sempre me entretenho em bons papos, lembra que sem referência ao pobre, sacramento vivo de Deus, Cristo corre o risco de virar um mero conceito devocional legitimador de um clericalismo que nada tem de evangélico ou profético.Tenho dito a são Pedro que sonho com uma Igreja em que o celibato seja facultativo para os sacerdotes e as mulheres possam celebrar missa. Uma Igreja livre das amarras do capitalismo, e na qual os oprimidos se sintam em casa, alentados na busca de justiça e paz.Quanto ao mundo, lamento que a fome, por cuja erradicação tanto lutei, ainda perdure, ameaçando a vida de 950 milhões de pessoas e causando a morte de cerca de 23 mil pessoas por dia, a maioria crianças. Por que tantos gastos em formas de ceifar vidas, como armamentos, e investimentos que degradam o meio ambiente, como pesticidas, desmatamentos irresponsáveis e cultivo de transgênicos? Por que tão poucos recursos para tornar o alimento - dom de Deus - acessível à mesa de todos os humanos?Ao comemorarem meu centenário, lembrem-se dos princípios e objetivos que nortearam a minha vida. Malgrado calúnias e perseguições, vivi 91 anos felizes, pois jamais esqueci do que disse meu pai quando comuniquei a ele minha opção pela vida sacerdotal: 'Filho, egoísmo e sacerdócio não podem andar juntos'".Viva, no seu centenário, Dom Helder, símbolo de uma outra igreja possível!

Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 11 de fevereiro de 2009.Chico AlencarDeputado Federal, PSOL/RJ

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