19/04/2009

Na praia com Darcy Ribeiro


Ir à praia para mim significa parar!! Sabe aquela coisa...pare o mundo que eu quero descer!
Eu sempre desço, saio, me esvazio do mundo na praia... simplesmente esqueço da vida!
Por esse motivo eu amo ir à praia sozinha, ou melhor acompanhada somente pelos meus autores favoritos...e hoje fomos eu e Darcy Ribeiro, viajar nas paisagens do Rio de Janeiro.

Durante o tempo em que pegavamos sol, eu me apaixonava ainda mais por esse homem, por sua história de subversão, de loucura, de frenéticas e inúmeras paixões... ele me falava dos seus exílios, do Brasil democrático que ele sempre sonhou, de sua adoração por Jango e por Brizola e de suas frustrações ao ver que a Ditadura brasileira destruiu seus maiores sonhos...

Inclusive ele me relatou que certa vez na volta do exílio, indo direto para o hospital para operar um câncer no pulmão, ele pediu aos milicos que o foram buscar no aeroporto que passassem pela praia de Copacabana... mesmo encurralado e amedrontado com o medo da morte ele saboreou aquele momento e olhou as bundas das mulatas... " quanto gozo ao ver aquelas belas bundas desfilando em Copacabana!"

Darcy me contava das mulheres que amou... umas tantas no Brasil, outras tantas no Chile, na Venezuela e no Peru... mas falava também de sua companheira Berta com quem foi casado e dizia que as paixões dominavam sua vida..."sempre fui arrebatado pelas paixões!"

Darcy dizia que ele era assim mesmo... não sabia ficar parado... morou 10 anos com os índios, foi chefe da Casa Civil, fundador da Universidade de Brasília...secretário de cultura e o escambal!

Eu disse Darcy... se apaixone por mim... vc está fuzilando o meu coração com suas confissões!

E ali ficamos nós... de bunda pro ar, batendo papo, vendo o mar, sentindo a brisa e falando de sua longa trajetória...


Isso é tarefa de biógrafo. Se eu tiver algum, ele que se vire, sem me querer mal por isso. Quero muito que estas minhas Confissões comovam. Para isso as escrevi, dia a dia, recordando meus dias. Sem nada tirar por vexame ou mesquinhez nem nada acrescentar por tolo orgulho. Meu propósito, nesta recapitulação, era saber e sentir como é que cheguei a ser o que sou. Quero também que sejam compreendidas. Não por todos, seria demasia; mas por aqueles poucos que viveram vidas paralelas e delas deram ou querem dar notícia. Nos confessamos é uns aos outros, os de nossa iguala, não aos que não tiveram nem terão vidas de viver, nem de confessar. Menos ainda aos pródigos de palavras de fineza, cortesãos. Quero inclusive o leitor anônimo, que ainda não viveu nem deu fala. Mas tem coração que pulsa, compassado com o meu. Talvez até me ache engraçado, se alegre e ria, se tiver peito.

Não me quer julgar, mas entender, conviver. Não quero mesmo é o leitor adverso, que confunde sua vida com a minha, exigindo de mim recordos amorosos e gentis, apagando os dolorosos, conforme sua pobre noção do bem e da dignidade. O preço da vida se paga é vivendo, impávido, e recordando fiel o que dela foi dor ou foi contentamento. Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras. A você que fica aí, inútil, vivendo uma vida insonsa, só digo: "Coragem! Mais vale errar, se arrebentando, do que poupar-se para o nada.O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora, a nossa parte. Depois, seremos matéria cósmica de virtudes ou de gozos. Apagados, minerais. Para sempre mortos".

Prólogo de "Confissões", último livro de Darcy Ribeiro

Um comentário:

  1. Foda saber que um homem desse não está mais entre nós né?! mas, temos que nos dar por felizes em ter acesso pelo menos a um pouco do que viveu e tentou nos passar. Grande Darcy!
    Amei amiga. Obrigada por compartilhar mais essa obra excelente. Bjs e boa semana

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