06/01/2010

E vamos a luta!

Quando eu tinha 17 anos e estava terminando o 2º grau, eu pensava em fazer uma faculdade que acrescentasse algo em mim e no mundo...

Me decidi pela área de humanas, queria algo que me fizesse pensar, decidi então fazer história... virei então a revolucionária de sandália rasteira, saiões, que tirava sempre 10 nas provas de antropologia, que amava Raul( continuo amando muito), que odiava tudo que tivesse muito relacionado com o sistema, achava os Sem terra a maior organização do Brasil, achava que o LULA iria salvar os pobres, votava no PSTU... A faculdade era para mim o paraíso... mesmo trabalhando o dia inteiro em pé, recebendo um salário mínimo, pagando a faculdade com 80% do meu salário, seguindo a viagem em pé no 497 e voltando pra casa de Kombi às 22:40h da noite. A faculdade era o paraíso pq meu pai sempre sonhou em fazer uma faculdade, pq meu pai sempre me disse que as pessoas para serem importantes tinham que cursar um nível superior, pq o sonho do meu pai era formar uma filha (não em licenciatura mas em direito), então aquilo para mim era o céu...eu havia chegado lá!

Com 19 anos mudei as minhas concepções de igreja e me aproximei da esquerda católica, desisti da RCC e fui criticar todo o ouro da igreja, toda a gastança de dinheiro no vaticano, fui trabalhar em jantar dos pobres, idolatrei as freirinhas que moravam em um barraco no morro da mangueira e que nem sequer tinham geladeira... eu acreditava que para ser feliz só bastava isso... ter ideal...o ideal, o sonho nos faria vencer, nos traria a luz, tornaria a sociedade mais justa.

Aos 23 anos eu me casei, ainda com os projetos sociais em mente, com a idéia de que o conhecimento me abriria muitas portas, me enfiei em pós graduações, lia tudo que encontrava pela frente, esclareci meus pensamentos, minha mente, minha intelectualidade, acreditava em um casamento que duraria para sempre, em que tudo que fosse construído fosse para os dois, fui braço, fui ponte, fui mulher e me embebeci desses ideais todos de vida... pensávamos até em sermos missionários pelo mundo!

Hoje com 31 anos, me sustentando, dividindo AP com uma amiga, com um condomínio que come o meu fígado, com grana apenas para beber em Madureira e viajar para casa de amigos me peguei dizendo a seguinte frase: Eu não estou aí pra caridade...

Parei e me olhei... a gente muda porra! A gente muda quando o suor começa a descer da nossa face e a gente não tem grana para pagar a conta, a gente muda quando a nossa intelectualidade só nos serve na mesa de um bar, a gente muda quando percebe que o poder e o dinheiro é que comanda e que se você dormir alguém come o seu bife! A gente deixa as rasteiras e coloca o sapato fechado quando percebe que nas grandes empresas não existe espaço para rasteirinhas... É quando você acorda e percebe que só é possível ter ideal quando se tem estabilidade, seja ela qual for, mesmo que seja o teto dos seus pais.

Encontrei outro dia a galera da faculdade, aquela galera idealista, segue o papo:

A – Eu quero é dinheiro, esse negócio de aluno pobre, eu to fora, cansei de passar fome!

B – Porra, a gente era doido cara, eu viajava nas escadas daquela faculdade...

C – Eu virei DJ, só faço festa trance para filhinho de papai....

D – É galera, ideal não enche a barriga de ninguém não!

Então é isso... meu ideal agora é ter dinheiro para pagar a conta, mesmo que seja na bendita área financeira que eu tanto zombava, porque meu ideal agora é ver minha conta bancária com estabilidade suficiente para que me sobre tempo para pensar em caridade! Mas apesar de tudo o que não muda em mim é meu senso de justiça, embora bem mais ponderado, quando o que está em jogo é meu ganha-pão... o meu trabalho!

E vamos à luta!


4 comentários:

  1. A realidade é conservadora. ;)

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  2. "só é possível ter ideal quando se tem estabilidade"

    Você disse tudo.
    O fato é que um pouco de egoismo, um pouco de "eu", é necessario para a vida. Como os seus amigos de faculdade disseram, ideal nçao enche barriga de ninguem.

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  3. Hum... Sabe, as vezes eu penso como vc pensava no passado.. E ainda tenho um tempo pra isso, rs, ja que eu to tentando entrar na Universidade agora. Mas mesmo assim, percebo que as coisas não são bem assim, mas eu sinceramente não queria ter que mudar. Adoro meus vestidos e sandálias rasteiras! =D

    BjO

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  4. Me li aí!! Adorei o texto, realista, como a nossa vida tem que ser. Gostei também da nova cara do blog!

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