17/02/2011

Rasga coração

Hoje novamente eu fui assistir convidada pelo meu amigo Tiago D'avila, cumpridor de sonhos que eu cito nesse post aqui, a peça Rasga Coração, obra do Vianinha que se tornou um ícone contra a ditadura militar no Brasil.

Voltando a falar da peça, quero dizer que saí de lá com meu coracao remexido.
Dentre muitos conceitos trabalhados na peça, um deles está a relação de nossos ideais com o tempo e as obrigacoes impostas, tudo isso verbalizada e representada pela relação de um pai com o seu filho.

O pai que foi revolucionario na década de 30 e que em 72 vê tenta colocar ao seu filho hippie a representatividade de seus ideais, porém o seu filho vai contra e joga na cara do pai as suas fragilidades o acusando de ser um funcionário público de merda... e esse homem que um dia foi um jovem revolucionário, revive a sua juventude, através de lembranças de suas lutas, amigos, família e se vê muitas nas atitudes dos filho.

A Questão é que eu saí de lá com a sensação de que eu já fui o filho e que agora sou o pai...
Eu já fui a filha sonhadora, que acreditava que todo o mundo se renderia aos meus ideiais, que tudo estava do avesso e que somente o povo poderia mudar tudo e que eu viveria a minha vida assim, lutando por aquilo que eu acredito, mesmo que isso fosse utópico.

E quando eu me vejo como o pai, eu me debulho em lembranças da época da faculdade, dos congressos de história antiga com a galera que não tinha nenhum compromisso com a vida e que ficava perambulando e discutindo história pelo Largo da Carioca e no meio dessas lembranças eu vejo a Lília( filha) acusando a Lilia ( pai) de na verdade não ter feito grandes coisas, de hoje ser uma funcionariazinha de merda com um salário mediano que ama o seu emprego, que discute política, mas que já não se vê mudando o mundo com as próprias mãos.

Em determinado momento da peça no meio das acusações do filho ao pai, um amigo do filho deixa claro que nada do que o pai dele fez no passado passou em vão e o próprio pai se coloca como aquele que todos os dias na condução do trabalho para casa ainda sente o peito de revolucionário arder diante das injustiças do mundo e que apesar de ter mudado o foco dos seus ideais não deixa de sonhar...

E aí, caramba eu me emociono pra kct, porque apesar de ser uma funcionáriazinha de merda que pega o metrô lotado todos os dias de Irajá à carioca, ainda sinto meu peito arder diante dos meus ideais, diante das injustiças, diante da realidade cruel que enfrentamos, meu peito ainda arde, apesar de eu não ser mais aquele ripongazinha saída do curso de história e de não frequentar às rodas de sociedades humanitárias... a funcionáriazinha aqui, ainda assina e apóia a associação de funcionários de sua empresa, a funcionáriazinha aqui sabe que a vida a levou por outros caminhos, mas que seu coração ainda pulsa.. e ainda acredita, que nos caminhos em que trilha é possível fazer a revolução acontecer no dia a dia, com o seu exemplo e atitude.

É... a funcionárizinha aqui... saiu da peça assim, meio mexida e voltou em pé no metrô, apesar do tardar da hora, da Carioca à Irajá... e chegou em casa e veio postar sobre a revolução dos dias úteis no metrô... a revolução do seu coração!!!

13 comentários:

  1. Que texto maravilhoso de ler moça.
    Ainda por cima falou do RJ, minha saudade agora.

    Beijo Lília.
    Fernanda

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  2. Oi Lilia
    Pode passar o tempo que for, mesmo que a vida nos leve por outros caminhos, nossos ideais de revolucionários, nunca deixam de existir, mesmo que escondidos no fundo de nossas lembranças, ou no nosso eterno desejo de que as coisas sejam diferentes.
    Bjux

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  3. Eu nunca tive uma fase extremamente revlucionária como você, mesmo estando na faculdade. Nunca saí nas ruas em forma de protesto ou participei de rodas de sociedades humanitárias. Mas as coisas também me causam indignação e me revoltam. E essa talvez seria uma grande revolução, se todos tivessem consciência política e do mundo que vivem. A pior doença social é a ignorância e a demagogia.

    É bom ver arte capaz de nos fazer refletir, não é mesmo? Beijos!

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  4. À medida que crescemos mudamos o foco da nossa luta. Descobrimos que o mundo é muito grande para conseguirmos mudá-lo todo, então vamos travando nossas batalhas no nosso mundinho mesmo, mudando as coisas que podem ser mudadas ao nosso redor. Fazemos nossa revolução de maneira mais silenciosa, mas vencemos nossas batalhas à cada dia e sem perceber, vamos mudando o mundo. Não na velocidade que imaginávamos aos 18, nem com o mesmo ímpeto, mas um pouquinho de cada vez, com coragem e determinação.

    Beijos

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  5. “Eu devia estar contente
    Porque eu tenho um emprego
    Sou um dito cidadão respeitável
    E ganho quatro mil cruzeiros
    Por mês...

    Eu devia estar sorrindo
    E orgulhoso
    Por ter finalmente vencido na vida
    Mas eu acho isso uma grande piada
    E um tanto quanto perigosa...

    Eu devia estar contente
    Por ter conseguido
    Tudo o que eu quis
    Mas confesso abestalhado
    Que eu estou decepcionado...
    Porque foi tão fácil conseguir
    E agora eu me pergunto "e daí?"

    É você olhar no espelho
    Se sentir
    Um grandessíssimo idiota
    Saber que é humano
    Ridículo, limitado
    Que só usa dez por cento
    De sua cabeça animal...

    Eu que não me sento
    No trono de um apartamento
    Com a boca escancarada
    Cheia de dentes
    Esperando a morte chegar...”

    Raulzito

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  6. Eu acredito que o tempo não muda os nossos ideiais. A nossa maneira de lutar por eles é que muda.
    Beijos.

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  7. Lília, vim agradecer tua visita, amei!

    Beijo.
    Fernanda

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  8. Homem Comum

    Sou um homem comum
    de carne e de memória
    de osso e esquecimento.
    e a vida sopra dentro de mim
    pânica
    feito a chama de um maçarico
    e pode
    subitamente
    cessar.

    Sou como você
    feito de coisas lembradas
    e esquecidas
    rostos e
    mãos, o quarda-sol vermelho ao meio-dia
    em Pastos-Bons
    defuntas alegrias flores passarinhos
    facho de tarde luminosa
    nomes que já nem sei
    bandejas bandeiras bananeiras
    tudo
    misturado
    essa lenha perfumada
    que se acende
    e me faz caminhar
    Sou um homem comum
    brasileiro, maior, casado, reservista,
    e não vejo na vida, amigo,
    nenhum sentido, senão
    lutarmos juntos por um mundo melhor.
    Poeta fui de rápido destino.
    Mas a poesia é rara e não comove
    nem move o pau-de-arara.
    Quero, por isso, falar com você,
    de homem para homem,
    apoiar-me em você
    oferecer-lhe o meu braço
    que o tempo é pouco
    e o latifúndio está aí, matando.

    Que o tempo é pouco
    e aí estão o Chase Bank,
    a IT & T, a Bond and Share,
    a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
    e sabe-se lá quantos outros
    braços do polvo a nos sugar a vida
    e a bolsa
    Homem comum, igual
    a você,
    cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
    A sombra do latifúndio
    mancha a paisagem
    turva as águas do mar
    e a infância nos volta
    à boca, amarga,
    suja de lama e de fome.

    Mas somos muitos milhões de homens
    comuns
    e podemos formar uma muralha
    com nossos corpos de sonho e margaridas.

    (Brasília, 1963)

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  9. Pedro Rocha (Luca) pediu:

    Homem Comum

    Sou um homem comum
    de carne e de memória
    de osso e esquecimento.
    e a vida sopra dentro de mim
    pânica
    feito a chama de um maçarico
    e pode
    subitamente
    cessar.

    Sou como você
    feito de coisas lembradas
    e esquecidas
    rostos e
    mãos, o quarda-sol vermelho ao meio-dia
    em Pastos-Bons
    defuntas alegrias flores passarinhos
    facho de tarde luminosa
    nomes que já nem sei
    bandejas bandeiras bananeiras
    tudo
    misturado
    essa lenha perfumada
    que se acende
    e me faz caminhar
    Sou um homem comum
    brasileiro, maior, casado, reservista,
    e não vejo na vida, amigo,
    nenhum sentido, senão
    lutarmos juntos por um mundo melhor.
    Poeta fui de rápido destino.
    Mas a poesia é rara e não comove
    nem move o pau-de-arara.
    Quero, por isso, falar com você,
    de homem para homem,
    apoiar-me em você
    oferecer-lhe o meu braço
    que o tempo é pouco
    e o latifúndio está aí, matando.

    Que o tempo é pouco
    e aí estão o Chase Bank,
    a IT & T, a Bond and Share,
    a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
    e sabe-se lá quantos outros
    braços do polvo a nos sugar a vida
    e a bolsa
    Homem comum, igual
    a você,
    cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
    A sombra do latifúndio
    mancha a paisagem
    turva as águas do mar
    e a infância nos volta
    à boca, amarga,
    suja de lama e de fome.

    Mas somos muitos milhões de homens
    comuns
    e podemos formar uma muralha
    com nossos corpos de sonho e margaridas.

    (Gullar - Brasília, 1963)

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  10. Amigannnn...
    interessantissimo, fiquei curiosa com a peça, adoro teatro.
    legal qdo o que vemos nos faz refletir, qdo faz alguma diferença na nossa vida.
    E não se chame de funcionária de merda não, pense que vc chegou lá, por seu esforço e eu te adomirooooo

    beijocasss grandes e bom fds

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  11. Liliaaa, adoro seus posts,seus textos, show...Passa no blog, tem selinho prá vc...Besitos

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  12. Oi Lília
    Enfim no blog novinho e lindo como só podia ser... rs adorei o azulzinho e os detalhes em renda, ficou show !
    que bom poder compartilhar conosco da peça que viu trazendo reflexoes pessoais , sensações comuns a quem tem sede de justiça e ainda sonha.
    obrigada e parabéns pelo blo texto.
    boa semaninha do Irajá a Carioca rs
    com meu abraço

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  13. Bah adorei!
    Será que vai ter em POA essa peça?

    bjos

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